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Dois anos após concessão, trecho da BR-153 está abandonado

Dois anos após concessão, trecho da BR-153 está abandonado

Rodovia é uma das principais rotas de transporte do Norte para o Sul.
Concessionária citada na Lava Jato não obteve financiamento do BNDES.

Uma empresa de um dos grupos citados na Lava Jato ganhou há dois anos a concessão de um trecho da BR-153, uma rodovia que liga as regiões Norte e Sul. Mas até hoje, essa parte da rodovia praticamente não recebeu nenhum benefício.

A rodovia é uma das principais rotas de transporte de passageiros, madeira e produtos agropecuários do Norte para o Sul do país. São mais de três mil quilômetros passando por oito estados. Num dos trechos, a situação é crítica.

Entre Anápolis, em Goiás, e a divisa com o Tocantins são 440 quilômetros em pista simples; 60 mil veículos passam por dia na região. Os caminhões tomam conta da estrada.

“A gente tem medo de sair de casa e não voltar porque, às vezes, um cai no buraco aí e invade a pista da gente e não tem por onde sair”, conta o mecânico Altieres Serapião.

De um lado da ponte, por exemplo, já não tem mais nada da mureta de proteção. Ficou só um pedaço de concreto que já está despencando e algumas barras de ferro.

Para enxergar as placas de sinalização só mesmo revirando o mato. Com chuva, dirigir fica ainda mais perigoso. Os caminhões pesados afundaram o asfalto na altura de Campinorte, norte de Goiás. E a água se acumula.

“Já aconteceu comigo de dar aquaplanagem. Quase que saí fora da estrada muitas vezes. É difícil, tem água demais na hora que está chovendo e a água está grossa”, disse um motorista. 

Era para ser diferente. Faz dois anos que a concessionária de rodovias Galvão ganhou a concessão para fazer a manutenção da pista, construir viadutos, passarelas e principalmente duplicar a estrada, mas por enquanto pouca coisa foi feita.

Trabalho mesmo, só tapa buracos. Em alguns trechos, nem roçagem. Pelo contrato de concessão, nesses dois anos a empresa deveria ter duplicado 240 quilômetros da rodovia. Mas a obra não saiu no papel.

Na base da concessionária, em Porangatu, 94 veículos novinhos ficaram parados por dois anos. Eram ambulâncias, UTIs equipadas, caminhões-guincho que acabaram confiscados pela Justiça por falta de pagamento.

A concessionária pertence ao Grupo Galvão, dono da Galvão Engenharia, citada na Lava Jato por supostamente fazer parte do cartel das empreiteiras. Por conta das investigações e também pela recuperação judicial do Grupo Galvão, o BNDES não liberou financiamento. R$ 700 milhões foram pedidos para empréstimo imediato.

As 700 pessoas que tinham sido contratadas para trabalhar na obra foram demitidas. Solange foi uma delas.

“Foi uma coisa assim que ninguém previa, né? Foi uma coisa repentina, então foi isso que foi mais doloroso para a gente”, diz Solange Silva Moreira, supervisora de curso técnico.

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) afirmou que entrou com um processo administrativo, que pode anular a concessão da Rodovias Galvão porque a empresa descumpriu uma série de normas para a manutenção da estrada.

A concessionária de rodovias Galvão declarou que, sem o financiamento do BNDES, foi possível fazer apenas os serviços básicos de manutenção, e que espera a aprovação do plano de retomada da concessão por parte da ANTT para fazer as obras necessárias.